Como o vento

Acompanhando as correntes
Carregando tudo que há
Seguindo todas as vertentes
Atravessando tudo, até o mar

Quando em estado de paz
Ventos são leves e amáveis
Meche o vestido que jaz
Na encosta dos grandes males

Mas, quando irritado
Não mede os estragos
Finge que não é louvado
Faz tudo até ter um agrado

Carregando ventos quentes
Faz o corpo da donzela suar
Aquece-a numa noite sem luar
Ergue o vestido entre os dentes

Entretanto, carregando o frio
É que mostra seu melhor destino
Arrepia até o menor dos fios
Faz o amor ser o melhor caminho

Como o vento um dia ei de ser
Para tudo no mundo poder ver
Transparente como na minha mente
Das cores que seu mundo sente

Percorrer tudo sem ter um destino
Entrelaçar-se com o seu infinito
Nesse universo entrarei sem querer
Pois, como o vento eu ei de ser

Além de ti, dentro de ti

Ver o que está além de ti
Penetrar onde é proibido
Conhecer o prazer desconhecido
Saber o fim que está ali

Entrelaçar-se com a alma
Sem dor, melancolia, amor
Amar o pecado com calma
Da carne, do sabor, da cor

Ver o que está dentro de ti
Adorar o que está no interno
Acariciar o desejo materno
Dançar no ritmo do fim

Acender o fogo no escuro
Atirar no meio do disturbio
Entender o limite obscuro
É só carnal, apesar de tudo

Viver como eu vivo

Viver como eu vivo
É viver assistindo
Sendo o criador do figurino
Um artista de circo
Cantar história com um sino
Sorrir frente ao risco
Sonhar como um menino
Reclamar do que foi vivido

Amar a amada
Beijar na calada
Da noite louvada
Com a lua imaculada
Iluminando a sacada
Usando uma ruma ada
Deixo essa bicharada
No fim dar uma brincada

Por isso eu digo
Que só os mais vivos
Podem sonhar sorrindo
Usar a caixa com alívio
Imaginar-se como destemido
Batalhar, ser mestre, discípulo
Dar vida a palavras sem sentido
Modular o mundo com o espírito

Sedutora

São nos envolventes traços
Que jamais imaginei
Amarrar todos os braços
Me prender como sonhei

Por nada pude evitar
Por mais que ficasse cego
Impedisse aquele seu olhar
Evitasse aquele seu ego

Mesmo cobrindo os segredos
Não pude deixar escapar
O doce escondido em lapedos
Evitando a água amargar

Quando a chuva molha os fios
Encharcam os mais de mil
Mil desejos infinitos
Meus infinitos instintos

É tudo tão incontrolável
Seguir a sombra dos passos
Seu jeito de amar meu abraço
Do amor que é o mais adorável

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Cansaço

Cansaço é uma palavra entediante
Três sílabas em meio ao relento
É estar os três dias ofegante
Mesmo no fim do mundo, me contento

Cansaço tem mesmo que existir
Imagina você poder sorrir
Sem filtrar o que quer sentir
Apenas aceitando o que está por vir

Cansaço veio para perturbar
Todo o progresso da nossa vida
Nos bate, fazendo-nos fadigar
Remete-nos a contrapartida

Cansaço não deveria existir
Da vida eternamente, se gozar
Fazer toda a coisa coexistir
Infiltrar-se nos escuros do mar

Agora se você se rende a ele
É porque lhe falta muito
Falta-lhe de tudo no mundo
Assim você vai esmorecer

Então, para matar esse cansaço
Que só lhe impede de viver
Só procurando ter muito cansaço
Pois assim não há mais de sofrer

Afago

Se o afago fosse fácil de obter
Se o afago fosse só o que queria
Se o afago fosse um bem querer
Se o afago, seu, fosse todo dia

O dia não terminaria tão cansativo
O dia seria um sonho bonito
O dia teria um luar infinito
O dia, meu, seria um alivio

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Na Sombra da Árvore

Esperando você nesta sombra
Saberei como é sua cor
De longe vejo a penumbra
Confusa por todo seu calor

Pele branca, flor rosa e macia
Fios vermelhos, todo o ardor
Olhar perfeito, malícia
Ser de desejo, causa do amor

Eis que vejo-a passando por mim
Sentado aqui permaneço
Pois assim é meu começo

Um olhar juntou, meu e o seu
Um calor em cada um cresceu
Eis que tudo isso não teve um fim

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Libido

Oh baby, por que não está aqui?
Venha sentir o que há de bom
Olhe seu sorriso, isso não engana
Queres saber como é no edredom
Deixe dessa birra, tu me chamas

Permita sentir o toque suave
Aprecie comigo, o beijo ardente
Faça com que seu lábio cole ao meu
Brincarei de língua, no céu, seu
É assim que o mundo acontece

Tudo já está subindo, olhe
Estamos voando e nem sentes.
Sentes somente um suor frio
Do calor que percorre o rio
Subindo as curvas do paraíso

Entrou nesse barco, fique firme
Aguente o balançar e os aclives
A tempestade que está para começar
E os ventos fortes que irão soprar
Aumentarão o fogo da nobre fornalha

A matéria prima já foi dada
Molde com muito amor, minha amada
Deixe o espirito controla-la
E crie a maior de todas as armas
Aquela que só um deus usara

Diga sim aos demônios babando
Diga sim aos santos pecando
Diga não a todos os patronos
Diga “mais uma vez ao meu comando”
Beba todos os goles desejando…

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O balançar do vermelho

Esperei não sentir nada
Não foi um errar desejado
Cantei em pranto e risada
Noite em que o mal foi enterrado

No céu restava o vermelho
Um vermelho lindo e límpido
Intocável naquele espelho
Contive-me como um foragido

Vi o balançar do seu véu
Na medida em que ventava
Delicada nuvem no céu
Desenhava e se recriava

O despedir daquele fogo
Foi a chama que se deixara
Desejei tanto seu afago
Vi sumir tudo que restara

Lutar

Sentir o impossível
É bom para alguns
Saber que é difícil
Dita-se um por um

Sorrir na direção
Cairmos, no caminho
Emitir um perdão
Levantamos rindo

Ter medo da sina
Temer a retina
Cegar-se me intriga

Golpear a verdade
Lutar com coragem
Vencer na vontade

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